segunda-feira, 22 de abril de 2013

Wladimyrr, o tempo

Palavras de Wladimyrr:

O tempo parece um losango, mas é melhor pensar nele como uma sanfona. Se você tomar o tempo como uma linha, um dado acontecimento pode criar uma bifurcação, dividindo-a em quantas partes forem possíveis. Para efeitos didáticos, a gente pode imaginar duas sublinhas, A' e A''. Nelas, o mesmo acontecimento pode ter dois desdobramentos. Por exemplo: se um Zezinho qualquer aposta na loteria em um ponto A' e perde, se ele pudesse voltar no tempo e enviar os número para ele mesmo num ponto A'', ele ficaria pobre num ponto, mas rico no outro.

No entanto, tal fenômeno se daria nesses dois pontos, que são os pontos máximos em que a linha se bifurca. Depois, esse mesmo Zezinho, que ganhasse na loteria, empobreceria, a medida que o outro, mais pobre, recuperaria um pouco do seu patrimônio, igualando as duas realidades quando as linhas voltassem a se cruzar, retornando ao estado anterior. Isso existe porque o tempo possui uma espécie de "gravidade temporal". É como quando a gente joga uma pedra para o alto. Ela atinge um ponto máximo, mas volta à origem. É claro que isso se daria proporcionalmente, até o ponto em que a linha se tornasse una novamente.

Existe, porém, uma exceção, mas apenas se um fato extraordinário, fenomenal, acontecesse, e aí poderia haver mais possibilidades nessa bifurcação do tempo. Mas, nesse caso, nem uma viagem no tempo poderia influenciar nessas consequências...

VWladimyrr parou na metade suas elucubrações para pensar um pouco mais no tempo, ouvindo "The Confrontation" da ópera "Les Misérables".

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Wladymirr, o refinado

Apesar da formação em Física Quântica, Wladymirr é uma pessoa de grande cultura geral. Gosta de arte, de música, de Literatura - mas não curte muito nem praia, nem esporte. Como morou muitos anos na Alemanha, acabou adquirindo um certo gosto pelos artistas de lá, como Goethe, Schiller, Hesse, Fassbender, Beethoven, dentre outros.

Quando não está mergulhado em suas teorias, Wlad relaxa lendo. Literatura é uma de suas paixões. A outra, o teatro. Mas, como não gosta muito de se misturar, prefere ler uma boa peça. Acha Demian e Sidarta, de Hesse, bons livros, apesar de espiritualizados demais. Gosta de Doutor Fausto, de Thomas Mann. Também põe um disco na vitrola, de preferência uma ópera do Wagner. Tannhäuser und der Sängerkrieg aus Wartburg é sua preferida, de modo que sabe os três atos de cor. Mozart era legal, mas tinha o "defeito" de ser austríaco. Não gosta muito de música popular. Pop, sertanejo e funk, nem nos piores pesadelos!

Não curte muito bebida alcoólica, mas um vinhozinho de vez em quando cai bem. Um Liebfrau verdadeiro. Não a cópia brasileira. Detesta cerveja. E olhe que já até namorou uma menina da Baviera! Também não curtia muito futebol, um dos esportes preferidos dos alemães, senão "o". Mas adorava um Feinkosten, um Einsbein, um Würtze e uma Apfelstrüdel. E, é claro: um café preto e um pãozinho de queijo, nem quentinho, saindo fumacinha...

Tanta "germanice" acabou por deixar Wladymirr um tanto quanto sofisticado, refinado. E um pouco arrogante, por assim dizer. Sem perceber, tinha arroubos de superioridade. Dentro de si, se acha uma pessoa legal. Mas não tem paciência para a ignorância alheia, por isso, escolhe seus alunos a dedo. Não se acha "amigo" deles, mas um mestre - e olha a todos como discípulos. Até porque, sem perceber, Wlad fica cada vez mais reservado, mais misterioso, porque tem segredos que não quer, nem pode revelar. Como sua própria noção do Tempo. Que ensina apenas àqueles que escolhe a dedo.

Wladymirr, as mulheres e o tempo

Já disse que Wladymirr sentia-se inseguro perto das mulheres. Porém, mesmo um reservado professor de Física Quântica pode ter seus segredos. Desde quando Wlad tomou um fora de uma garota, ainda na adolescência, nunca mais procurou se aproximar do sexo feminino de novo. Na verdade, nunca mais se aproximou do sexo. Pensar em alguma garota, de vez em quanto, era o suficiente. Sua Física falava mais alto e ele, sem se aperceber, canalizou essa energia para suas contas de matemática, suas teorias. E assim, mergulhou fundo na ciência, esquecendo-se de si.

Acontece, no entanto, que Berlim reservava muito mais supresas do que ele esperava. E, uma delas, tinha nome: Sonja Wündk, uma jovem esguia, loira, de cabelos curtos e de olhos azuis, proveniente da festeira Baviera. De início, Wladymir não entendeu por que olhava tanto para ela. E, em uma teoria ou outra, pegava aqueles lindos oceanos azuis olhando para ele e o sorriso, maroto, provocativo. Sentiu, de novo, o coração bater mais forte. Lembrou-se da colega de sala, lá de Formiga. Sentiu medo de avançar.

Mas, como tudo o que deve ser espera por nós, Wlad percebeu que Sonja estava com problemas para entender algumas equações. Era uma teoria inovadora, a respeito do tempo. Num impulso, ofereceu-se para ajudá-la. A essa altura, já era monitor do Professor Fritzel, tendo aprendido muito sobre a tal teoria - e começando a ensaiar a sua. Ela, sorridente, aceitou a ajuda. Ele sorriu.

Vladymirr e Sonja não tardaram em atar bem forte o laço que começava a uni-los. De um simples coleguismo, a coisa se tornou uma amizade, para, por fim, tornar-se algo mais sério. E, pela primeira vez em sua vida, Vlad esqueceu-se de si. E caiu nos braços de Sonja. Pela primeira vez, ele caiu nos braços de uma mulher...

Por um período fizeram artigos e sexo, sempre que podiam. Mas Vladymirr, cada vez mais focado nos seus estudos sobre o tempo, percebeu que teria de optar por ela ou pela ciência. O Dr. Fritzel, seu professor e também mentor apostava cada vez mais nele, deixando-o até dar aulas em seu lugar. E Wlad estava encantado com isso. Sentia-se importante, sentia-se superior. Sentia que começava a deter um conhecimento que o faria acima dos comuns. E fechava-se, de novo, cada vez mais. 

Sonja percebeu que estava perdendo o seu lugar para a Física e, assim, resolveu terminar. Como falava fluentemente o inglês, aceitou uma proposta para trabalhar em uma indústria nuclear, em Essex e, assim, botou o rapaz de contra a parede. Ele gostava dela, certamente. Podíamos dizer que até a amava. Mas também amava a Física, mais especificamente, o tempo. Titubeou. E, assim, pedeu a moça. 

Não foi à partida dela para a Inglaterra. Nem chorou. Preferiu afogar suas tristezas nos estudos, como sempre fazia. Talvez fosse melhor assim. Não dava para ser o grande cientista que desejava ser e ter uma mulher. Dessa feita, mergulhou nas teorias de Fritzel e passou no Mestrado e no Doutorado "cum laude". 

Eu já disse também que ele resolveu voltar para o Brasil, fazendo prova para a UFES. Mais uma vez, o "acaso" pregou uma de suas peças. Pois a prova didática foi justamente a respeito do tempo. E ele não teve dificuldade alguma em passar em primeiro lugar. Nem de perceber que aquela Universidade guardava mistérios que, com sua capacidade arguta, conseguia perceber. 

Assim, longe de Fritzel, de Sonja, da Alemanha e de qualquer outro empecilho, Wladymirr pôs-se a desenvolver a sua teoria sobre o tempo. E, cada vez mais, foi-se voltado para dentro, para os seus experimentos, para os seus mistérios. Percebeu que se tornava, naquele lugar, cada vez mais uma "força", uma peça necessária naquela engrenagem. Mas que, infelizmente, precisava lidar com seus antípodas.

Em todo caso, Wladymirr não está com o coração fechado para as mulheres. Só adormecido...

terça-feira, 2 de abril de 2013

Wladymirr, o começo

Wladymirr nasceu Wladymirr Stein Drumond. O Drumond é um sobrenome bem comum em Minas. O Stein é da mãe, de ascendência germânica. Ele é de Formiga, cidadezinha pacata do interior mineiro. Sempre gostou de estudar. Era uma criança quieta, no seu canto. Gostava de fazer experimentos. Não dava trabalho para os pais que, às vezes, até se esqueciam de que ele estava em casa. Tinha seu mundo à parte.

O interesse pela Física nasceu de um fora de uma garota. Sem jeito para com as meninas - e longe de ser o cara mais popular da sala - Wladymirr tentou se achegar na menina mais bonita da 8ª série (hoje, 9º ano). Ela deu bola, mas só para sacaneá-lo no final. Ele caiu na cilada. Fechou-se em copas.

Se Wlad já tinha tendência à introspecção, depois daquilo, ficou pior ainda. Devorava as contas de matemática, até que conheceu o Professor Assis. Era um tipo excêntrico, fechadão. Achou o professor semelhante a ele. E vice-versa. Daí a reciprocidade. Foi quando ele começou o amor pela Física, sobretudo pela Física Quântica. Não teve dúvidas: era isso que queria fazer no Vestibular.

Formiga ficou pequeno para ele e, por isso, era hora de ir para BH. Conseguiu passar de primeira na UFMG. Ficou em uma república mas, caráter fechado, não conseguiu se adaptar. No entanto, jovem brilhante, conseguiu uma bolsa e, junto com algumas aulas, alugou um quarto para si, enquanto fazia a faculdade, sempre tirando as melhores notas, o que o fez ser admirado pelos professores.

Foi quando, um dia, passando pelo campus, viu um cartaz de um mestrado em Berlim. Como tinha ascendência alemã, ficou interessado. Matriculou-se no Teuto e engoliu os livros. Aprendeu o difícil idioma de Goethe em três anos. Demonstrou o interesse pela bolsa na Alemanha e foi ajudado por um professor. No fim do curso, já estava de malas prontas.

Em Berlim, mergulhou na Física Quântica, até o dia em que conheceu o Professor Fritzel. Homem de meia-idade, tinha uma teoria toda própria sobre o tempo. Wladymirr ficou fascinado! Morou na casa de Fritzel, virou seu assistente imediato. Chegou a dar algumas aulas no lugar dele. Ficou mais dois anos, para o doutorado.

Quatro anos depois, resolveu voltar. Sentiu falta do pão de queijo com café preto. Nunca gostou de praia, mas o clima quente do Brasil era muito melhor que os rigorosos invernos alemães. Resolveu que voltaria. Pesquisou na Internet, viu que havia uma vaga para a UFES, Universidade Federal do Espírito Santo. Lembrava-se do ES, das férias em Guarapari, em Iriri, em Piúma - e da praia de Camburi, na capital do Estado. Sabia que a vaga seria dele. 

Fez a prova de admissão e passou em primeiro lugar. Dá aulas na UFES há uns três anos e, hoje, dedica-se a desenvolver sua própria teoria sobre o tempo.