Já disse que Wladymirr sentia-se inseguro perto das mulheres. Porém, mesmo um reservado professor de Física Quântica pode ter seus segredos. Desde quando Wlad tomou um fora de uma garota, ainda na adolescência, nunca mais procurou se aproximar do sexo feminino de novo. Na verdade, nunca mais se aproximou do sexo. Pensar em alguma garota, de vez em quanto, era o suficiente. Sua Física falava mais alto e ele, sem se aperceber, canalizou essa energia para suas contas de matemática, suas teorias. E assim, mergulhou fundo na ciência, esquecendo-se de si.
Acontece, no entanto, que Berlim reservava muito mais supresas do que ele esperava. E, uma delas, tinha nome: Sonja Wündk, uma jovem esguia, loira, de cabelos curtos e de olhos azuis, proveniente da festeira Baviera. De início, Wladymir não entendeu por que olhava tanto para ela. E, em uma teoria ou outra, pegava aqueles lindos oceanos azuis olhando para ele e o sorriso, maroto, provocativo. Sentiu, de novo, o coração bater mais forte. Lembrou-se da colega de sala, lá de Formiga. Sentiu medo de avançar.
Mas, como tudo o que deve ser espera por nós, Wlad percebeu que Sonja estava com problemas para entender algumas equações. Era uma teoria inovadora, a respeito do tempo. Num impulso, ofereceu-se para ajudá-la. A essa altura, já era monitor do Professor Fritzel, tendo aprendido muito sobre a tal teoria - e começando a ensaiar a sua. Ela, sorridente, aceitou a ajuda. Ele sorriu.
Vladymirr e Sonja não tardaram em atar bem forte o laço que começava a uni-los. De um simples coleguismo, a coisa se tornou uma amizade, para, por fim, tornar-se algo mais sério. E, pela primeira vez em sua vida, Vlad esqueceu-se de si. E caiu nos braços de Sonja. Pela primeira vez, ele caiu nos braços de uma mulher...
Por um período fizeram artigos e sexo, sempre que podiam. Mas Vladymirr, cada vez mais focado nos seus estudos sobre o tempo, percebeu que teria de optar por ela ou pela ciência. O Dr. Fritzel, seu professor e também mentor apostava cada vez mais nele, deixando-o até dar aulas em seu lugar. E Wlad estava encantado com isso. Sentia-se importante, sentia-se superior. Sentia que começava a deter um conhecimento que o faria acima dos comuns. E fechava-se, de novo, cada vez mais.
Sonja percebeu que estava perdendo o seu lugar para a Física e, assim, resolveu terminar. Como falava fluentemente o inglês, aceitou uma proposta para trabalhar em uma indústria nuclear, em Essex e, assim, botou o rapaz de contra a parede. Ele gostava dela, certamente. Podíamos dizer que até a amava. Mas também amava a Física, mais especificamente, o tempo. Titubeou. E, assim, pedeu a moça.
Não foi à partida dela para a Inglaterra. Nem chorou. Preferiu afogar suas tristezas nos estudos, como sempre fazia. Talvez fosse melhor assim. Não dava para ser o grande cientista que desejava ser e ter uma mulher. Dessa feita, mergulhou nas teorias de Fritzel e passou no Mestrado e no Doutorado "cum laude".
Eu já disse também que ele resolveu voltar para o Brasil, fazendo prova para a UFES. Mais uma vez, o "acaso" pregou uma de suas peças. Pois a prova didática foi justamente a respeito do tempo. E ele não teve dificuldade alguma em passar em primeiro lugar. Nem de perceber que aquela Universidade guardava mistérios que, com sua capacidade arguta, conseguia perceber.
Assim, longe de Fritzel, de Sonja, da Alemanha e de qualquer outro empecilho, Wladymirr pôs-se a desenvolver a sua teoria sobre o tempo. E, cada vez mais, foi-se voltado para dentro, para os seus experimentos, para os seus mistérios. Percebeu que se tornava, naquele lugar, cada vez mais uma "força", uma peça necessária naquela engrenagem. Mas que, infelizmente, precisava lidar com seus antípodas.
Em todo caso, Wladymirr não está com o coração fechado para as mulheres. Só adormecido...